Devoção ao Santinha

AMIGO TORCEDOR, amigo secador, fui conferir entre a massa coral, nas arquibancadas do Mundão do Arruda, o maior fenômeno de fidelidade de uma torcida, algo que só encontra correspondência histórica na devoção corintiana na estiagem de títulos que durou até a safra 1977.

Estamos tratando, meu chapa, de um time que enfrenta, no subsolo da quarta divisão do futebol, martírio digno dos chilenos presos na mina de cobre. Série D, de dantesco, você sabe lá o que é isso?! Você acha que a galera de outras equipes tradicionais aguentaria esse baque?

A do Palmeiras, do Grêmio e do Corinthians viveram experiências na B e passaram com orgulho no teste, embora sem o comparecimento equivalente aos fãs do Santinha, como os devotos chamam carinhosamente o clube.

O Fluminense desceu à terceira e a torcida esteve presente, mas nem pensar em chegar aos pés do tricolor do Recife, que, até o final de semana, mantinha a maior média de público de todas as divisões do Brasileiro -30.238 torcedores.

Aos números e recordes, porém, este cronista já andava habituado. Tocante é testemunhar as manifestações da romaria de 50 mil fãs no Arruda, como no último domingo.

Se o Corinthians é uma torcida que tem um time e não um time que possui uma torcida, como se diz em São Paulo, o Santa Cruz é uma massa que nem precisa de time. E naquela tarde, o abusado Guarany de Sobral (CE), o Cacique do Vale, parecia jogar sozinho mesmo: 0 a 2, com inacreditáveis dois gols contra do mesmo zagueiro, Leandro. Coisas que só ocorrem hoje em dia com o tricolor pernambucano. Nem o Botafogo é vítima de infortúnio do gênero.

“Não faz isso comigo não, meu Santinha”, rogava o camelô Geraldo Ferreira, 60, que via o jogo ao meu lado. Aquele homem negro chorava livre de todas as cerimônias, aos soluços, como quem acaba de receber o aviso de uma fatalidade na família.

Seu Ferreira choraria do mesmo jeito ao final, de joelhos aos pés de Margarete, sua mulher, mas agora feliz com a virada: um heroico 4 a 3. “Se tem duas coisas que amo na vida é minha “nega veia” e o Santinha”, confessou.

Com ela, amor recíproco e de 30 anos. Com o time do peito. Um amor mal correspondido, como costumam ser os amores mais perversos. No divã, receberia, fácil, fácil, o atestado de masoquista, mas nada disso importa, afinal, meio amor não é amor, como diria o tio Nelson.

Xico Sá, da Folha de São Paulo, publicou na sua coluna desta sexta-feira um belo texto falando sobre a paixão da torcida do Mais Querido.

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