O renascimento do poeta Miró

Entrevista com João Flávio Cordeiro

miro2Com o livro “aDeus”, João Flávio Cordeiro, o poeta Miró, questiona a existência do divino: “há Deus?” Também oferece a Deus seus poemas e sonhos. E se despede de um tempo para deixar renascer um novo momento em sua vida: “Olhei para o passado. As folhas dos calendários caindo. É preciso plantar cedo sua árvore pra mais tarde ter uma sombra que lhe agasalhe”.

Figura conhecida no Recife, Miró, que viu a morte de perto, decidiu abandonar o álcool e recomeçar a vida. Usufrui agora de um novo momento, em que desfruta do
reconhecimento público e da possibilidade de pensar em si mesmo.

Nessa sua nova fase, o poeta-cronista, que dá às palavras a poesia da voz e do corpo, conta com muito apoio: dos amigos, que o ajudam a cuidar de si; e da mão invisível de sua mãe, que deixou para ele um legado de sensibilidade e integridade.

Como você está, nesse novo momento de sua vida?
Muito bem. Estou conseguindo vender meus livros. Tenho sido chamado para dar entrevistas em vários jornais e revistas. Voltei agora da Bienal do Rio de Janeiro. Vou ser até homenageado da Bienal de Pernambuco (será que é porque pensavam que eu ia morrer?)… E sei que tudo isso está acontecendo comigo porque eu parei de beber. Ainda estou tentando descobrir quem é esse novo Miró. Mas durante muito tempo, andei esquecido de mim e agora estou retornando. Descobri uma coisa boa que é a dignidade de dispor do dinheiro de minha arte para comprar coisas pra mim: uma roupa, uma sandália, uma bolsa de viagem. Aquilo que, antes, eu gastava com bebida, hoje posso usar para fazer um tratamento dentário, comer melhor, viver melhor.

E o que te deu essa força para resistir e recomeçar?
Os amigos e, principalmente, ter visto a morte de perto.

Como foi essa tua quase morte?
Desde que minha mãe morreu, eu já vinha me enterrando no álcool. Mas, desta vez eu tive delirium tremens, achei que ia morrer… Era bem cedo quando eu vomitei a bile. Aquela gosma verde no lençol branco surgiu para mim como uma rã imensa que ia me engolir. Eu tremia inteiro… Minhas mãos tremiam. Mesmo assim, consegui achar uma caixa de fósforo e, com um palito, apertar as teclas do telefone e ligar pra Wilson Freire. Ele ligou de volta e eu respondi: – Vem pra cá, que eu tô morrendo!… Ele chegou rápido e, não sei como, eu consegui jogar a chave pra ele. No caminho pro Hospital Oswaldo Cruz, ele só me disse: – Feche os olhos e só abra quando eu mandar. Ele sabia que, tendo delírio, eu atrapalharia muito a chegada no hospital. E, de fato, quando chegamos lá e ele me disse para abrir os olhos, eu achei que estava num abrigo pra menores infratores, na Funasa. Eu gritava: – Wilson, eu não sou ladrão… Eu sou poeta… Tiveram que me sedar e me amarrar.

E quando você decidiu retomar a vida?
Foi no oitavo dia. Ainda vou escrever um poema sobre isso: O Oitavo Dia… Eu fiz amizade com todo mundo que estava comigo na enfermaria. E um deles, que tinha
câncer, me chamou: – Poeta, meu soro tá no fim. Vai lá pedir pra trocarem. Eu dei um pulo e fui correndo dar o recado. A enfermeira quando me viu, comentou: – Eita, poeta! Tá bom de ter alta, né? Aí, quando eu voltei pro quarto, sentei na cama e comecei a olhar ao meu redor e me dar conta daquele universo que me rodeava. Todos os que estavam comigo não podiam nem andar. Mas eu podia sair dali! Eu vinha me negando a usar o soro, apesar da insistência das enfermeiras… Naquele dia, decidi: – Coloca aí o soro, que eu quero viver!

E tem sido difícil resistir?
Eu não tenho tido vontade de beber. Wilson liga quase sempre pra mim. Pelo tom da minha voz, ele percebe como eu estou. Numa dessas ligações, ele perguntou: – Já bateu a primeira vontade? Eu disse: – Ainda não. E olhe que estou em teste porque estou morando no coração boêmio da cidade: perto do Mercado da Boa Vista e de todos estes bares cheios de malucos, conhecidos meus. Quando tem um maluco mais insistente, que fica me oferendo bebida, eu finjo que tenho que fazer alguma coisa ou que tenho que atender um celular, desconverso e caio fora…

Miró, como a poesia surgiu na tua vida?
Veio com o futebol. Esse nome Miró não é por conta do artista plástico. É por causa de um ex-jogador do Santa Cruz (apesar de eu ser rubro-negro). Meu sonho era ser jogador de futebol. E eu era bom nisso. Naquela época, início dos anos 80, a classe média vivia mais perto das casas em que o povo morava. Não era como hoje, onde os ricos se isolam nos arranha-céus. Eu morava por ali, perto do Oswaldo Cruz, e um dia eu estava voltando pra casa e passei pelo campo onde os meninos, da classe média, estavam jogando futebol. Então parei pra olhar. Acontece que um deles se contundiu e teve que sair do jogo. Aí um dos rapazes me chamou pra entrar. Eu fiquei de goleiro. Em um dos lances, fiz uma defesa, peguei a bola, saí driblando todo mundo e fiz o gol. Eles deliraram e eu passei a ser aceito na turma e conviver com gente como Maurício Silva, Lenine, Nena Queiroga… Fazia pequenos serviços. E jogava bola.

E a poesia?
Um dia, Maurício Silva estava escrevendo um poema. Eu perguntei: – O que é isso? – Uma poesia, quer ouvir? E ele leu: Farda verde/verde/verde/Praça verde/verde/verde/e o coração bate continências/a toda mulher que passa. Quando ele terminou, eu disse: – Entendi! É um policial, olhando a mulher gostosa! E
aquilo ficou martelando nos meus ouvidos. Eu tentava imitar, ficava repetindo: azul, azul… vermelho, vermelho. E minha mãe: – Que é isso, menino? Tá convivendo demais com aquele pessoal! Eles são doidos, deixa disso… Então, um dia, andando pelo centro, eu vi um policial arrastando um pivete pela camisa, junto com outros quatro. E alguém, que passava, gritou: – Corre, que já são quatro horas! Eu olhei o relógio dos Correios e o ponteiro passava um pouco das quatro. Escrevi: Quatro horas/Quatro ônibus levando vinte e quatro pessoas tristonhas e solitárias/Quatro horas e um minuto/Acendi um cigarro e a cidade pegou fogo/Cinco horas/Cinco soldados espancando cinco pivetes/filhos sem pai e órfãos de pão/Cinco horas e um minuto/ urinei na ponte e inundei a cidade/Seis horas/o Recife reza e eu voando pra ver Maria. Foi o meu primeiro poema!
Começou bem, hein?
Eu escrevi aquilo e depois fiquei em êxtase! Fui caminhando do centro até onde a gente morava, perto do Oswaldo Cruz, pra mostrar pra Maurício. E, no caminho todo, eu repetia cada frase. Quando eu cheguei lá e disse que tinha escrito um poema, ele pediu pra ler. Eu disse: – Não. Eu quero dizer o poema pra você. E falei. Ele ficou impressionado. Disse: – Você é um poeta, Miró!

miro3Então essa tua relação com a palavra escrita e a palavra falada sempre existiu?
Sempre. Eu sei todos os meus poemas decorados. Quando eu era criança, eu tinha uma professora que fazia uma roda de leitura. Eu sempre fui mal aluno, mas sempre gostei de ler. E toda vez ela só sorteava o meu número, 23, pra começar. Um dia eu perguntei: – Professora, por que sempre sou eu quem começo? E ela disse: – Porque você tem pausa. Você lê bem… Talvez essas leituras na sala tenham me influenciado. Mas todo poema que escrevo, eu falo e repito. Primeiro pra mim mesmo. Depois para os outros. E essa virou uma marca minha. Isso me ajudou. Em vez de tentar escrever meu livro ou vender meus poemas escritos, eu achava uma brecha num show, numa atividade, e recitava. A primeira vez que subi num palco pra dizer poesia foi num show de Maciel Melo, em Petrolina, uma cidade que me abriu muitas portas.

Agora fala sobre teu novo livro: aDeus a quem?
São poemas escolhidos dentre vários que eu tinha escrito antes de entrar no hospital. Era um momento em que eu me perguntava: – Há Deus? Então eu digo que este é um livro feito a várias mãos, porque Wilson entregou o material para Wellington Melo, da Mariposa Cartonera. E Wellington escolheu, dentre aqueles todos, 33 poemas que casaram perfeitamente com a fase que estou vivendo agora. Então esse “aDeus” é um “para Deus”, é um “Há Deus?”, e é um “adeus” aquele antigo Miró para o nascimento de um novo.

Fonte: Fabiana Coelho – Revista dos Bancários

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