O acesso do Santa Cruz, a inédita conquista do povão

Ontem, todos festejaram. Toda a alegria da cidade convergiu para o Arruda

 

Não existe, em nenhuma outra galeria de troféus de um clube no Brasil, algo parecido. Nem a galeria do Arruda, que guarda entre outras conquistas os sete títulos  ganhos pelo memorável supertime dos anos 1970, poderá materializar o feito do Santa Cruz na última década. De fato, a trajetória recente do clube, inédita no futebol brasileiro, não pode ser sintetizada numa taça. Nem mesmo num conjunto de taças.

Não se pode, também, editar o tempo e resumi-lo apenas aos períodos de alegria. É injusto com a memória tricolor contar essa história a partir de 2011, ano marcado pelo mais improvável dos títulos estaduais e pela saída da Série D – após dois anos de fracasso. As dores e as decepções sofridas não foram em vão. Mostraram de forma categórica que havia um clube no país que não dependia de resultados, somente. Existia por conta do seu povo.

Foi assim entre 2006 e 2010: quando um caía, caíam todos. Desmoronavam no campo e nas arquibancadas, mas renasciam ainda mais unidos. Uma, duas, três quedas. Seguidas. Lágrimas cada vez mais pesadas. Quando os olhares alheios achavam que o fim poderia estar próximo, eles prometeram nunca abandonar o time. Das arquibancadas, juraram amor eterno. Gritaram, em coro, que não iriam parar de apoiar. Em momento algum. Qualquer que fosse a dificuldade. Qualquer que fosse a divisão. Assim fizeram. Degrau por degrau. Primeiro, na descida. Depois, na subida.
Se há, portanto, um lugar onde é possível encontrar alguma representação dessa conquista do Santa Cruz, é na alma tricolor. No coração de cada um. Só eles sabem a dimensão do que foi cair tanto. E subir em tão pouco tempo.

Os geraldinos e geraldinas que lembram exatamente onde estavam no jogo contra o Criciúma, em 2007, que levou o time à Série C. Os Josés e as Marias que estavam em Campina Grande, em 2011, na decisão do acesso contra o Treze, e aplaudiram os jogadores que desciam para o vestiário, no intervalo, com o placar adverso de 2 a 0. Diante do prenúncio de mais uma decepção, deram o combustível necessário para o time reagir, buscar o empate (o jogo terminou 3 a 3) e garantir a saída da Série D, sacramentada no 0 a 0 no Arruda.

Os Joões, Joanas, Paulos e Paulas que ignoraram os compromissos no Recife e viajaram para acompanhar o time em estádios distantes neste ano. Foram a Salvador, na Bahia; ao Rio; a Itu, em São Paulo. Foram para reafirmar a promessa de anos atrás: nunca abandonar. Sofreram juntos. Comemorariam juntos.

Ontem, todos eles festejaram. Pintaram  o Recife de preto, branco e vermelho. Toda a alegria da cidade convergiu para o Arruda. Uma explosão de um povo que passa a ser exemplo para outros. Não apenas  para as nações ligadas ao futebol.

Ser tricolor hoje, como bem definiu o blogueiro Cássio Zirpoli, é saber que nenhum outro torcedor no país passou por algo parecido. Pela entrega. Pela devoção. Pelo renascimento. Renascimento de um gigante adormecido, motivo de orgulho nacional nos anos 1970. Uma década de ouro em que os tricolores assistiram ao penta (1969-1973), ao 4º lugar do Brasileirão e ao desfile de suas estrelas na Seleção Brasileira (Ramón, Givanildo, Carlos Alberto Barbosa, Nunes…). Ali, sob o manto da bandeira  de Pantera e embalada pela buzina de Ivanildo, nasceu  a união inseparável entre time e torcida. O estádio virou o Mundão do Arruda. Tinha que ser gigante para abrigar a massa que lotava o campo para ver o time de craques. O povão sempre  acompanhou o Santa Cruz. O povão nunca irá deixar o Santa Cruz. O povão é o Santa Cruz.

Publicado em: 23/11/2015  08:00

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